O navio de 1889 que reaparece entre os arrecifes da Pajuçara na maré baixa
Restos do Vapor Mundaú, de ferro, ficam à vista em Maceió quando a água recua. Há passeios de canoa e de prancha até o local.
Quando a maré baixa na Pajuçara, o mar recua e deixa à mostra uma estrutura de ferro escura entre os arrecifes. De longe, pode parecer só mais uma formação de corais. De perto, é parte do casco do Vapor Mundaú, que está ali desde 1889.
A remadora Márcia Ribeiro leva alunos e turistas até o ponto desde 2019. Os passeios são de canoa ou de prancha. De canoa, o visitante observa a estrutura à distância. De prancha, chega mais perto do casco.
A hora importa. As melhores condições aparecem quando a maré chega a 0,3 metro ou menos. Em alguns momentos a água fica tão rasa que dá para ficar em pé perto do ferro. A variação da maré deixa trechos diferentes do casco à vista a cada dia.
Do Recife a Jaraguá, em dois dias
O Mundaú pertencia à Companhia Pernambucana de Navegação Costeira por Vapor e tinha cerca de 30 anos de operação. Jornais da época já criticavam o estado de conservação da embarcação.
Ele saiu do Recife em 22 de julho de 1889 e chegou ao porto de Jaraguá dois dias depois, onde recebeu uma mala postal. Na madrugada de 25 de julho, partiu rumo a Penedo.

A viagem durou poucos minutos. Por um problema técnico, o vapor não conseguiu voltar a Jaraguá, encalhou nos arrecifes da Pajuçara e foi abandonado. Não houve vítimas. Passageiros, tripulação e mercadorias saíram em botes do porto.
O que ainda se discute
Nem tudo está fechado. A historiadora Luana Teixeira, doutora em História pela UFPE e mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Iphan, afirma que o navio já tinha problemas estruturais ao chegar. Para ela, foi levado à Pajuçara para reparos e provavelmente abandonado ali, e não afundou durante uma viagem. Não há informação definitiva sobre o que aconteceu depois.
Outra versão diz que o vapor buscou abrigo em Maceió por causa de uma tempestade, que todos se salvaram e que grande parte da carga foi recuperada.
O biólogo e mergulhador Maurício Carvalho pesquisa naufrágios há mais de 40 anos. Os documentos que ele reuniu no Sistema de Informações de Naufrágios (SINAU) indicam a companhia proprietária do vapor. O levantamento aponta ainda outros dois naufrágios na região da praia.
Para Márcia, parte do encanto está em encontrar um vestígio tão antigo tão perto da cidade.
O nome também mudou com o tempo. A museóloga e escritora Carmen Lúcia Dantas, ex-diretora do Museu Théo Brandão, explica que as grafias “Mandahú”, “Mundahú” e “Mundaú” são comuns em palavras de origem indígena, porque a escrita foi se alterando ao longo dos anos.


